O Que é Cerclagem? Minha Experiência Real
Revisado em 28 de setembro de 2026. A cerclagem é uma sutura no colo do útero que pode reduzir o risco de parto prematuro ou perda tardia em situações selecionadas. A indicação depende do histórico, dos exames e da avaliação obstétrica; o procedimento também tem riscos e não garante o resultado. Veja as explicações para pacientes do RCOG e do ACOG.
Este texto conta minha experiência pessoal e não substitui orientação médica. Cada gestação é única — decisões sobre cerclagem ou qualquer tratamento devem ser sempre feitas com seu próprio obstetra.
Se você chegou até aqui, provavelmente acabou de ouvir do seu médico a palavra “cerclagem” e está com um misto de medo e mil perguntas na cabeça. Eu passei exatamente por isso — e não uma, mas duas vezes na mesma gestação. Neste post vou explicar o que é a cerclagem, quando ela é indicada, como é o procedimento e, claro, vou contar a minha própria experiência, que foi bem diferente do que a maioria dos relatos que encontrei na internet.

O Que é Cerclagem Uterina?
A cerclagem é um procedimento cirúrgico no qual um ponto é colocado ao redor do colo do útero para ajudar a mantê-lo fechado e reduzir, em situações específicas, o risco de perda gestacional tardia ou parto prematuro.
Colo curto e insuficiência cervical não são exatamente a mesma coisa. O colo curto é uma medida identificada principalmente pela ultrassonografia transvaginal. Já a insuficiência cervical envolve a incapacidade do colo de sustentar a gestação, podendo ocorrer dilatação sem contrações típicas do trabalho de parto. O diagnóstico e a conduta dependem da medida, da presença de dilatação, do histórico obstétrico e da fase da gestação.
O colo do útero funciona como uma espécie de “porta” que precisa permanecer fechada durante toda a gestação, abrindo apenas no momento do parto. Quando essa estrutura começa a afinar (o que os médicos chamam de esvaecimento) ou a encurtar antes da 37ª semana, o risco de parto prematuro ou até de perda gestacional aumenta consideravelmente. Segundo a FEBRASGO (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), o acompanhamento do comprimento cervical por ultrassom é uma das formas mais eficazes de identificar precocemente o risco de parto prematuro.
Como é Medido o Colo do Útero
O comprimento do colo usado para orientar decisões deve ser medido por ultrassonografia transvaginal, seguindo técnica padronizada. Em gestação única, uma medida igual ou inferior a 25 mm no segundo trimestre é considerada colo curto. Isso exige avaliação médica, mas não significa que toda gestante com essa medida precise de cerclagem: a conduta pode incluir acompanhamento, progesterona vaginal ou cerclagem, conforme o histórico, a dilatação e outros fatores.
Quando a Cerclagem Pode Ser Indicada?
A indicação não depende apenas de uma medida isolada. A equipe pode considerar a cerclagem em situações como:
- Histórico compatível com insuficiência cervical, como determinadas perdas no segundo trimestre ou partos prematuros anteriores;
- Colo curto identificado por ultrassonografia transvaginal em gestante com histórico obstétrico que aumente o risco;
- Dilatação do colo encontrada no exame físico antes do momento esperado, em situações nas quais a equipe considere possível uma cerclagem de emergência.
Em gestantes sem parto prematuro anterior e sem dilatação, o colo curto por si só nem sempre leva à cerclagem. A conduta pode ser diferente, como aconteceu nas recomendações atuais para algumas gestantes com colo entre 10 e 25 mm. Pressão pélvica, sangramento ou sensação de peso não confirmam o diagnóstico, mas precisam ser avaliados, especialmente quando surgem durante uma gestação de risco.
Minha Experiência: Descobrindo a Gestação de Risco
No meu caso, tudo começou em uma consulta de rotina, por volta de 22 semanas. Durante a ecografia, o médico percebeu que meu colo estava com 1,73 cm e disse, sem rodeios, que eu precisava falar urgentemente com minha obstetra. Ainda na saída da clínica, já mandei mensagem para ela, que me orientou a ir imediatamente ao pronto-socorro e mantê-la informada de tudo.
Na emergência, a médica plantonista me explicou os dois lados da moeda: se eu fizesse a cerclagem, havia um pequeno risco de a bolsa romper durante o procedimento; se eu não fizesse, o risco era não conseguir segurar a gravidez por muito mais tempo, com o bebê nascendo em extrema prematuridade. Eu e meu marido decidimos seguir com a cerclagem. Assinei o termo de consentimento e fui internada naquela mesma noite para o procedimento.
Como é Feito o Procedimento
A cerclagem transvaginal é feita pela vagina, sem corte externo no abdome. O tipo de anestesia, a duração do procedimento e o período de observação variam conforme o caso, a técnica utilizada e o hospital. A cerclagem planejada costuma ser colocada entre 12 e 24 semanas e geralmente é retirada por volta de 36 a 37 semanas, embora existam situações de emergência e condutas individualizadas.
Nas duas cerclagens recebi raquianestesia, da cintura para baixo. Na primeira, o bloqueio foi mais leve: fiquei consciente de tudo e ainda conseguia mexer os pés. Na segunda, a anestesia pareceu mais forte. Como eu já estava havia mais tempo em jejum, também recebi glicose pela veia. Fiquei olhando para a luz enorme sobre mim, consciente, com os braços esticados e monitorada o tempo todo. Os procedimentos não doeram. Depois, a equipe acompanhou a recuperação dos movimentos e se eu conseguia ir ao banheiro sozinha.

Depois da alta, voltei para a rotina normal, inclusive ao trabalho, acreditando que a cerclagem havia resolvido o problema e que a gestação seguiria tranquila até o fim.
Quando Nem Sempre é Simples: Minha Segunda Cerclagem
Só que, menos de um mês depois, durante o banho, senti um fio saindo pelo canal vaginal. Assustada, entrei em contato com minha médica, que mais uma vez me orientou a ir à emergência. Já era noite, e o médico plantonista, ao me avaliar, ficou receoso de mexer no fio — ele não sabia se deveria simplesmente cortá-lo ou se eu precisaria refazer todo o procedimento. Ninguém conseguiu me explicar com clareza por que o fio havia soltado, ainda mais considerando que o médico responsável pela primeira cerclagem era extremamente experiente e reconhecido no hospital nesse tipo de cirurgia. Como não houve solução naquela noite, fui para casa.
No dia seguinte, voltei ao hospital à tarde, já sabendo que o médico que havia feito a primeira cerclagem estaria de plantão. Fui internada novamente e segui, mais uma vez, para a sala de cirurgia — repetindo todo o processo pelo qual já tinha passado semanas antes.
Só que a segunda cerclagem também não durou muito. Em pouco tempo, os pontos começaram a soltar de novo, e nenhum médico que me acompanhou conseguiu explicar o motivo. Segundo eles, era um caso incomum: nunca tinham visto uma cerclagem “não segurar” da forma como aconteceu comigo. Em uma ecografia posterior, meu colo já estava com 0,08 cm — o equivalente a 0,8 mm, e fui orientada a entrar em repouso absoluto.
O Que Veio Depois
A partir daí, minha gestação de risco ganhou outros capítulos: fui afastada pelo INSS (vou contar todos os detalhes desse processo em um post específico) e, como a cerclagem não estava segurando, minha obstetra optou por associar o pessário ao tratamento — uma conduta individualizada escolhida pela minha obstetra para o meu caso. Contei essa parte com todos os detalhes no post Pessário Cervical ou Cerclagem: Qual a Diferença e Qual Fiz na Minha Gravidez.
Quando Procurar Atendimento
Depois de uma cerclagem, procure a equipe responsável ou um serviço de urgência se apresentar contrações ou cólicas persistentes, sangramento importante, perda de líquido, febre, corrimento com odor desagradável ou qualquer sintoma novo que preocupe você. As orientações individuais recebidas no hospital devem sempre prevalecer.
Considerações Finais
Lembrando: não sou especialista, apenas compartilho o que vivi. Se você está enfrentando um diagnóstico de colo curto ou já foi orientada a fazer uma cerclagem, saiba que cada gestação é única, e mesmo dentro do que os médicos consideram “esperado”, o corpo pode surpreender — para o bem ou para o mal, como aconteceu comigo. O mais importante é manter uma comunicação próxima com sua equipe médica, não hesitar em procurar ajuda diante de qualquer sintoma novo e, sempre que possível, contar com uma rede de apoio ao seu redor.
Este espaço, o Mãe na Prática, nasceu justamente para compartilhar essas experiências de forma real, sem filtros, na esperança de que outras mães que estejam passando por situações parecidas se sintam menos sozinhas. Se você já passou por uma cerclagem ou está enfrentando um diagnóstico de gestação de risco, deixe seu comentário — quero muito ouvir a sua história também.
Para entender melhor o diagnóstico, veja também o artigo sobre colo do útero curto, sintomas e cuidados. Já contei em detalhes como foi colocar o pessário cervical depois que a cerclagem não segurou. Também compartilhei como foi meu afastamento pelo INSS durante a gravidez de risco.
Última atualização: 20 de setembro de 2026.
Fontes médicas consultadas:
2 comentários sobre “O Que é Cerclagem? Minha Experiência Real”