Pessário Cervical ou Cerclagem: Qual a Diferença e Qual Fiz na Minha Gravidez
Este texto conta minha experiência pessoal e não substitui orientação médica. Cada gestação é única — decisões sobre pessário, cerclagem ou qualquer tratamento devem ser sempre feitas com seu próprio obstetra.
Se você já leu meu post sobre o que é cerclagem, sabe que a minha gestação de risco não parou por aí. Depois de duas cerclagens que não seguraram como deveriam, meu colo do útero continuou encurtando — e foi aí que conheci um recurso do qual eu nunca tinha ouvido falar antes: o pessário cervical. Neste post vou explicar o que é, para que serve, como ele se diferencia da cerclagem e, claro, vou contar como foi a minha experiência colocando um — incluindo a parte que ninguém me contou antes.

O Que é o Pessário Cervical?
O pessário cervical é um anel flexível de silicone, colocado ao redor do colo do útero durante um exame ginecológico, sem necessidade de cirurgia ou anestesia. Diferente da cerclagem, que exige pontos de sutura no colo, o pessário é encaixado no lugar por meio de um exame vaginal comum, feito em consultório.
Um dos modelos estudados é o pessário de Arabin, um anel flexível disponível em tamanhos diferentes. Uma das hipóteses é que seu posicionamento modifique o ângulo do colo e a distribuição da pressão, mas esse mecanismo não permite afirmar que o dispositivo impedirá o encurtamento ou o parto prematuro.
Como o Pessário é Colocado
Antes da inserção, o profissional avalia o colo e escolhe o tamanho do dispositivo conforme o caso. A colocação é feita com a paciente em posição ginecológica: o pessário é dobrado e introduzido pela vagina até ser posicionado ao redor do colo. Não há corte nem ponto, e normalmente não é necessária anestesia ou internação.
Pessário Cervical x Cerclagem: Qual a Diferença?
Os dois procedimentos são diferentes e não podem ser comparados apenas pela medida do colo:
| Cerclagem | Pessário cervical | |
|---|---|---|
| Procedimento | Colocação cirúrgica de um ponto ao redor do colo | Dispositivo de silicone colocado pela vagina |
| Anestesia | Geralmente necessária, conforme a técnica e o caso | Normalmente não é necessária |
| Retirada | A cerclagem vaginal costuma ser retirada por exame vaginal; a forma depende da técnica | Pode ser retirado pelo profissional por via vaginal |
| Evidências | Possui indicações definidas conforme histórico, medida e dilatação | Os estudos têm resultados conflitantes e o uso não é recomendado rotineiramente para toda gestante com colo curto |
O Que as Evidências Dizem Sobre o Pessário?
O pessário cervical foi estudado como uma forma de prevenir o parto prematuro, mas os resultados das pesquisas são conflitantes. Atualmente, a Society for Maternal-Fetal Medicine recomenda que ele não seja usado rotineiramente apenas por existir uma gestação única com colo curto. Isso não significa que nenhum médico possa utilizá-lo em uma situação individualizada; significa que ele não deve ser apresentado como tratamento comprovado ou padrão para todas as gestantes.
No meu caso, a obstetra considerou o pessário depois de duas cerclagens cujos pontos estavam se soltando e diante de um colo extremamente curto. Essa foi uma decisão específica da equipe que conhecia meu quadro, e não uma recomendação geral para outras gestantes.
Minha Experiência: Quando a Cerclagem Não Foi Suficiente
Depois das minhas duas cerclagens, fiz uma nova ecografia e o resultado não foi bom: meu colo continuava baixando, já estava com 0,08 cm — o equivalente a 0,8 mm, e eu tinha por volta de 30 semanas de gestação. Minha obstetra orientou repouso absoluto, e foi nesse momento que solicitei afastamento pelo INSS — eu trabalhava de carteira assinada (CLT), então precisei entrar com o pedido de auxílio-doença por conta da gestação de risco (vou detalhar todo esse processo em um post específico sobre o INSS).
Foi nessa mesma consulta que minha médica levantou a possibilidade de colocar o pessário. Até então, eu nunca tinha ouvido falar nisso — e quando fui pesquisar por conta própria, encontrei muito pouca informação em português, o que só aumentou minha ansiedade. Ela me explicou que eu poderia comprar o dispositivo e levar até a clínica, ou que ela mesma poderia fazer o pedido, o que levaria cerca de dois dias para chegar. Optei pela segunda opção.

Quanto Custou o Pessário
Um ponto que pouca gente fala com clareza: pagamos cerca de R$ 1.000 pelo pessário, mais o valor da consulta médica para a colocação. Meu plano de saúde não cobria esse procedimento, então foi um custo particular. Se você está considerando essa opção, vale a pena confirmar com antecedência com seu convênio se há algum tipo de cobertura ou reembolso — no meu caso, não havia.
O Dia da Colocação do Pessário
Confesso que estava bastante nervosa. Minha obstetra, sempre muito calma, retomou a explicação de todo o processo antes de começar, o que ajudou um pouco. Na primeira tentativa, ela tentou encaixar o pessário e empurrou, mas não conseguiu posicioná-lo corretamente. Senti bastante dor — não sei dizer se era a primeira vez que ela realizava esse procedimento especificamente, mas o fato é que chegou a machucar o colo do útero e houve um pequeno sangramento. Ela parou imediatamente e verificou os batimentos cardíacos do bebê, que estavam normais.
Na segunda tentativa, foi bem diferente: muito menos dor, e ela conseguiu encaixar o pessário no colo do útero rapidamente. Depois de posicionado, fizemos um teste prático — pediu para eu agachar, para verificar se o dispositivo permanecia firme no lugar. Deu tudo certo, e ela recomendou, mais uma vez, repouso.
Os Dias Seguintes: Sintomas e Adaptação
Nos primeiros dias, a sensação era estranha — como se houvesse algo diferente dentro do corpo —, mas isso foi passando aos poucos. Outro ponto que me incomodou foi um corrimento amarelado, que persistiu durante o período em que usei o pessário. Minha obstetra havia me avisado que poderia ocorrer aumento da secreção vaginal. Ainda assim, corrimento amarelo não deve ser considerado normal automaticamente: mudança de odor, coceira, dor, febre, sangramento ou suspeita de perda de líquido precisam ser comunicados à equipe médica.
A expectativa da equipe médica era conseguir manter a gestação até pelo menos 35 semanas, ponto em que o risco de complicações graves ligadas à prematuridade cai bastante.
O Corticoide para Maturação Pulmonar
Naquele fim de semana, também recebi duas doses de corticoide, uma em cada dia. Esse tratamento pode ser indicado quando existe risco de parto prematuro, para reduzir complicações do nascimento antes do tempo. A indicação, o medicamento e o intervalo entre as doses dependem da idade gestacional e da avaliação da equipe.
O Parto: Como Foi a Retirada do Pessário
Apesar de todo o medo ao longo do caminho, consegui chegar até 36 semanas e 6 dias de gestação — um resultado que, olhando para trás, considero uma vitória enorme perto do que poderia ter acontecido. Nesse dia, comecei a sentir contrações e fomos direto para a emergência. Lá, as contrações se intensificaram rapidamente, e a equipe médica precisou agir com urgência para retirar o pessário. Assim que ele foi removido, minha bolsa rompeu, e entrei em trabalho de parto.
Meu filho nasceu saudável, pesando 2,500 kg e medindo 47 cm — um bebê pequeno, mas forte, fruto de uma gestação cheia de desafios, decisões difíceis e muita fé.
Considerações Finais
Lembrando: não sou especialista, apenas compartilho o que vivi. Se você está diante da possibilidade de usar um pessário cervical, principalmente depois de uma cerclagem que não deu certo como planejado, saiba que sentir medo é absolutamente normal — eu senti bastante. Também é importante conversar abertamente com a equipe sobre os benefícios esperados, as incertezas das evidências e as alternativas disponíveis para o seu caso.
Cada gestação tem suas particularidades, e qualquer combinação de condutas precisa ser definida pela equipe que acompanha o caso. Eu consegui chegar a 36 semanas e 6 dias, mas não é possível afirmar qual intervenção teve maior influência nesse resultado. Posso apenas contar como cada decisão aconteceu na minha experiência.
Se você já passou ou está passando por algo parecido, comente aqui embaixo — esse espaço existe justamente para trocarmos experiências reais sobre gestação de risco.
Para entender melhor o diagnóstico que levou a essas intervenções, leia também sobre colo do útero curto, sintomas e cuidados. Também compartilhei como foi meu afastamento pelo INSS durante a gestação de risco, incluindo os documentos e o tempo de análise.
Fontes Médicas Consultadas
Última atualização: 20 de setembro de 2026.
3 comentários sobre “Pessário Cervical ou Cerclagem: Qual a Diferença e Qual Fiz na Minha Gravidez”